quinta-feira, julho 14

FRIENDLY FIRE

Desde a manhã de 7 de Julho que tenho quase sempre a televisão sintonizada para a Sky News. Gostaria de aproveitar esta oportunidade, se a blogosfera não levar a mal, para agradecer publicamente aos meus progenitores terem-me posto a aprender inglês logo no ensino primário. Acreditem que é muito útil. Entre outras razões, porque os media portugueses pouco relevo deram a uma notícia que me deixou estarrecido. Na passada segunda feira, quando os londrinos faziam frente ao terrorismo voltando à sua vida normal, o Comando de uma base aérea americana estacionada em East Anglia aconselhava o seu pessoal a evitar quaisquer deslocações à capital inglesa, por razões de segurança, claro, que isto de ser solidário é explosivo. Horas depois, o Relações Públicas da embaixada americana em Londres procurava justificar o injustificável perante os pivots enfurecidos da Sky News, ao mesmo tempo que um oficial com cara de sargento dava o dito por não dito. Perante isto, faltam-me as palavras e os adjectivos. Espero é que ao Sr. Blair não tenha faltado um lápis para tomar nota.

Logo no início da guerra do Iraque, receei que o primeiro ministro britânico pudesse vir a ser vítima do chamado friendly fire. Pelos vistos, lá levou com mais um tiro. Não é o primeiro, aliás. Vistas bem as coisas, até que não calha mal ao Sr. Blair um certo capital de queixa contra a administração americana, mas duvido muito da sua eficácia se os europeus continuarem a considerá-lo o poodle do Sr. Bush. Digo bem, os europeus, porque aqui no velho continente as coisas fiam mais fino. O Sr. Chirac, por exemplo, teve a incrível ideia de nomear para seu Ministro do Interior, aquele que zela pela segurança do Estado, um homem que sofre de incontinência verbal compulsiva. Nicolas Sarkozy, que muitos prognosticam ser o próximo inquilino do Palácio do Eliseu, já por duas vezes teve a inconfidência de transmitir aos media informações classificadas obtidas junto do seu colega inglês. À primeira, que foi logo no dia seguinte aos atentados, Charles Clarke ainda ficou calado, até porque tinha mais em que pensar, mas ontem, depois do que o ministro francês veio dizer à saída da reunião extraordinária em Bruxelas, não teve outro remédio senão fazer esta declaração: Monsieur Sarkozy est dans l?erreur, pour le dire gentiment. Aí os jornalistas perguntaram-lhe se já tinha falado com o seu colega depois dessas declarações. O ministro britânico, que me faz lembrar a capa de um álbum dos Gentle Giant, respondeu lacónico: não, nem podia, pois ele saiu a meio da reunião. Não achou apropriado ficar até ao fim das discussões. Suponho que é o seu estilo.

Perguntei a mim próprio se faria sentido classificar as rajadas do Sr. Sarkozy de friendly fire. Mas depois achei que sim. Afinal, para cínicos, já estamos bem servidos com o Vasco Pulido Valente.

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